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dos atos complementares
katharine, nunca se está sozinho com uma xícara de chá.
teve um ligeiro estranhamento quando eu soltei essa, na cantina do instituto, mas é o como imagino as coisas. as ações protagonizam o seu corpo para sua atenção, mas esta não está satisfeita sem atos complementares. embora o passado imaginado tente resgatar uma época em que se lia o livro com todos os sentidos exclusivos para ele, eu me vejo impossibilitado de atuar assim. uma música pra criar ambiência é lugar comum hoje, mas eu excedo um pouco isso. claro que eu odeio a companhia da tevê, mas um chá ou uns biscoitos amanteigados ou de côco, complementam bem esse ato maravilhoso de ler.
é como se a atenção não se contentasse com uma coisa apenas. e, espero, não é nenhum fenômeno novo o que eu estou explicitando. ler ao ar livre sempre foi uma prática que respeita esse princípio, desfruta-se o ambiente enquanto se lê. a brisa, a luz, o cheiro, a percepção (awareness) da presença de outras pessoas, tudo é complemento para a leitura. e isto vale para outras atividades, inclusive para aquelas que exigem mais atividade do seu corpo. andar de bicicleta é deslocar-se quase tanto quanto é admirar o vento e o borrar (blur) do chão sobre o que se roda. dançar é de uma ordem sinestésica que dispensa explicações. me arrisco a dizer que mesmo o sexo concorre com seus atos complementares.
concorrer, é claro, não tem aqui o significado que o mercado lhe deu. concorrer é ocorrer ao mesmo tempo, é só uma palavra com algum sentido a mais para complementar. ou colaborar.
essa dualidade da atenção provoca algo em um ponto des-atento da sua mente ou alma, aquele de onde vem os atos falhos. só ou não, essa acaba sendo a oportunidade para exercitar essa camada, para que ela se desenvolva e forme — como ela faz o tempo todo. o resultado é um diálogo da atenção, uma fruição dual que nunca te deixa só de verdade. uma xícara de chá, aliás, vale tudo isso.